Paganismo no ambiente de trabalho PDF Imprimir E-mail
Por Nami Anam   

Isto não é nem de longe um manual de sobrevivência no trabalho para um neo-pagão. Este texto surgiu da necessidade de partilhar minhas experiências e pelo fato de ter notado a falta de discussões sobre o assunto. Tentarei, portanto, expor minha opinião no desenrolar deste.

Dos dez aos dezessete anos freqüentei a igreja evangélica, por volta dos dezenove estava meio perdida no mundo, e foi aí que encontrei a bruxaria. Ao me tornar neo-pagã sentia certo receio, para não dizer medo, de contar minha opção às pessoas, inclusive as mais próximas. Até mesmo por querer poupar minha avó (que até hoje não sabe), que foi quem me levou para a igreja e teria um tremendo desgosto se soubesse que sua neta, a única que permaneceu algum tempo na igreja, se afastou do "caminho".

Na época em que me tornei bruxa, coincidentemente mudei de trabalho. Usava meu lindo pentagrama de prata feito a mão e queria exibi-lo a todos, como a maioria dos novos bruxos gostam de fazer. Até ser surpreendida por uma colega de trabalho:

-         Ei, por que você usa esse pentagrama?

-         Porque? Algum problema? – respondi agarrando o pingente.

-         Não, calma, foi só uma pergunta. Tem algo a ver com sua religião?

-         Sim... – respondi

-         Legal! – disse ela tirando a corrente para fora da blusa e mostrando o seu. – Bem vinda bruxinha!

Este foi o maior alívio da minha vida. Já tinha pensado que iam implicar comigo, dizer que eu era louca, que esse negócio de bruxaria não existia e que iam tentar me converter!!! Mas não, a recepção não poderia ter sido melhor. E se ela não tivesse vindo falar comigo, nós duas teríamos perdido a oportunidade de nos conhecermos melhor e de muitas vezes uma ter consolado a outra, pedido ajuda, trocado experiências e feito algumas celebrações juntas. Claro que após algum tempo os demais colegas ficaram sabendo, afinal éramos duas e tudo ficava mais fácil.

Hoje já não trabalho mais no mesmo local, por conta das voltas que a vida dá. E novamente me vi contra a parede, esse dias, em meu trabalho atual durante a hora do intervalo. Eu e mais três colegas de trabalho, já quase no fim do expediente fazíamos um lanchinho. Uma delas estava visivelmente ansiosa e eu, muito curiosa, perguntei:

-         Porque você está tão ansiosa?

-         Ai, porque eu tenho compromisso hoje...

-         E o que você vai fazer hoje, de tão importante hein? (olha a curiosidade aí)

-         É que hoje vão começar os trabalhos.

-         Trabalhos? – perguntei ainda mais curiosa

-         É.

-         Que trabalhos?

-         De um centro espiritualista que eu freqüento.

-         Ah! Mas que tipo de centro? Espírita?

-         Não, umbandista. Mas não é nada de magia negra viu!

-         Não pensei isso. – respondi. – Mas entendo esse seu comentário, conheço um pouco da sua religião e sei que assim como a minha sempre tem alguém que faz algo de ruim que é associado à imagem do grupo, e nós que temos boas intenções acabamos sendo taxados de malucos ou violentos.

-         É isso aí menina, falou tudo agora. Mas se precisar de uns trabalhos pode falar comigo.

-         Agradeço, mas acho que não vai ser necessário, porque eu já faço meus "trabalhos".

-         Você é umbandista também?

-         Não, eu sou bruxa. – respondi timidamente.

-         Legal, e você tem um grupo?

-         Sim, quando precisar estamos as ordens!

-         Legal, mas você sabe que quem mexe com magia tem de tomar cuidado né?

-         Sei, aprendi que tudo nessa vida tem sua conseqüência.

Desde esse dia ela me olha diferente. Sinto que com mais carinho, e isso tem me feito bem já que ela era uma pessoa com quem sempre fiquei com um pé atrás.

Bom, como já deu pra perceber, nunca tive problemas com colegas de trabalho por conta da bruxaria. Mas mesmo assim, sempre busco conversar sobre o assunto com cautela, especialmente com pessoas próximas, como no trabalho onde convivemos todos os dias. Afinal não podemos ser inocentes ou hipócritas a ponto de dizer que não existe preconceito. Todos nós sabemos que sim. Mas creio que é tempo de nós nos "revelarmos", não em nome do proselitismo, mas em busca de respeito. O que lhes peço encarecidamente é que ao nos intitularmos bruxos sejamos pessoas respeitosas, não necessariamente puritanas ou moralistas, mas pessoas dignas de confiança e respeito.

 

 
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